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Parque dos Príncipes

Espaço dedicado à cobertura do Campeonato Europeu de Futebol de Selecções a decorrer em França de entre 10 de Junho e 10 de Julho

Parque dos Príncipes

Espaço dedicado à cobertura do Campeonato Europeu de Futebol de Selecções a decorrer em França de entre 10 de Junho e 10 de Julho

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Jun16

Rendez-Vous com Mário Lopes (Público)


Pedro Varela

 

 

Foi pela música que Mário Lopes chegou ao jornalismo. Primeiro o Blitz, depois Diário de Notícias e em 2005 ao Público. É pelo futebol que chega ao Parque dos Príncipes com a classe imensa que faz recordar George Best em campo, o seu ídolo.

Fala-nos do grande Dassaev, num tempo em que muitos dos adeptos do futebol vibravam com a União Soviética e termina com o golo dos golos em Europeus, de Van Basten na final de 1988!

 

- Que Selecção consideras ser a grande favorita a ganhar a final de St. Denis no dia 10 de Julho?
 
A grande favorita, considerando aquilo que me vai dizendo o oráculo, ou seja, os cromos que tenho colado todos os dias na caderneta da Panini, é claramente a República Checa (só me falta um para a ter completa, e eu apostei comigo mesmo que a primeira equipa que completasse seria campeã). A razoabilidade ditada pela caderneta diz que devemos esperar grandes coisas de Petr Cech, do eterno Tomas Rosicky ou de David Lafata, este nascido a 18 de Setembro de 1981, internacional há dez anos pela sua selecção e avançado do histórico Sparta de Praga (tal como o trompetista Glenn Miller ou o actor António Silva, o Sparta era grande nos anos 1930). Se por estranho acaso do destino a República Checa não vingar em 2016 a derrota com a Alemanha na final de 1996, nessa vitória do funcionalismo rígido alemão através de um triste golo de ouro de Bierhoff, invenção horrível felizmente abandonada (o Nedved e o Poborsky, que nos eliminou, não mereciam a sorte que lhes calhou), nesse caso, então o mais provável é que ganhe a Alemanha, porque nunca estranhamos, ou a França, porque sempre que joga em casa aproveita para fingir que ainda é o centro do mundo - e têm-no conseguido, mesmo que por sortilégios místicos, como quando Platini, o sortudo, deu a volta aos dois golos de Jordão em 1984 sem saber muito bem como. Dito tudo isto, eu estou com fezada. Apanhamos os franceses na final. E ganhamos. Nós no centro do mundo. A ganhar aos franceses. Gostava de ver isso.



- Dos 24 países presentes em França em qual apostas como grande surpresa do torneio?

As surpresas dos torneios fogem sempre um pouco ao que parece mais óbvio. Ninguém apostava na Dinamarca em 1992, ninguém apostava em Portugal em 1984 ou na cruel Grécia de 2004. Passando os olhos pela caderneta - a minha relação com este Euro está a construir-se a partir dela -, reparei que a Croácia tem o Rakitic, 1,84m e 76kg, e o Modric (não sei peso e altura, ainda não saiu o cromo), e quem tem aqueles dois pode pensar em coisas bonitas. Já a Irlanda do Norte tem o Kyle Lafferty, um dos meus históricos, avançado letal contratado ao Burnley, a muito custo (agora anda pelo Norwich), nessa inesquecível época de FM em que conduzi o West Ham a um eufórico terceiro lugar na Premier League. Além disso,o George Best, que era norte-irlandês, nunca jogou um Europeu. Gostava que a Irlanda do Norte fosse a inesperada revelação do torneio. E, já que estamos nisto, porque não a Suécia, caso o Ibrahimovic decida fazer a sua obra de arte suprema e levar os seus bons rapazes mais longe do que o esperado? Está lá um Larsson e um Johansson, ou seja, é a Suécia de sempre. Ibrahimovic é a diferença - os destinos da velha nação escandinava estão nas mãos de um fanfarrão com pinta, que calha ser um grande jogador de futebol. Mas o que desejo mesmo a sério é que a surpresa do torneio seja a França, a jogar em casa e eliminada logo na primeira fase. Claro que isso tornaria impossível o sonho de lhes ganharmos na final, mas prescindo dele. Um jogo com a França, para nós, é sempre demasiado arriscado.
 

- De todos os craques consagrados que vão pisar os relvados gauleses, quem achas que vai ser o melhor jogador?

Por coisas cá minhas, gostava que fosse o William Carvalho ou o João Mário - mas qualquer outro da selecção serve, não quero ferir susceptibilidades. A verdade é que são grandes as probabilidades de ser um alemão qualquer que desate a fazer golos ou assistências, ou golos e assistências - pode ser mesmo qualquer um, a máquina sorteia: o irritadiço do Müller, o ostracizado e revoltado Mario Götze ou o Özil, se voltar a ser o jogador que poderia ter sido antes de se meter na tenebrosa trituradora que é o Real Madrid. Claro que também está confirmada a presença em França de Iniesta, veterano sábio, e há um Jamie Vardy que, neste preciso momento, parece capaz de tudo. Se conseguir fazer da Inglaterra uma selecção a ter realmente em conta, alcançará um feito mais impressionante que o campeonato com  o Leicester. Voltando à caderneta, gosto do entusiasmo discreto do Dzudzsak, avançado húngaro do Bursaspor, no cromo que lhe é dedicado enquanto estrela maior da sua selecção. Não me lembro de o ver jogar, apesar de ser nome familiar (fui investigar: jogou no PSV Eindhoven e no Dínamo de Moscovo, está explicada a familiaridade). Na verdade, não conheço um único jogador da Hungria, com excepção do grande Gabor Kyrali, que tem 40 anos e, consequentemente, joga com as calças de fato-de-treino cinzentas claras de quem já viu muito, de quem já andava a defender balizas nos relvados menos cuidados dos anos 1990. Na década de 1950, a Hungria de Puskas, Czibor e Kocsis mostrou ao mundo, perante o espanto geral, o que era o futebol moderno que temos hoje (há vídeos de alguns jogos no YouTube, infelizmente poucos, infelizmente incompletos, e é impressionante testemunhar o futebol total daqueles homens). Balázs Dzudzsak ser distinguido como melhor jogador do Euro 2016 seria um milagroso reencontro com a história.    

- Em que jogador apostas para grande revelação do Euro'2016 ?

Nasceu a 23 de Dezembro de 1986, mede 1m79 e pesa 72 kg. Foi internacional pela primeira vez em 2007. Jogou 77 vezes pela sua selecção e marcou 18 golos. O seu nome: Balázs Dzudzak. Obviamente.
 

- De todos os jogos que já viste de campeonatos europeus qual foi o melhor golo de sempre ?
 
Dasaev era um dos meus jogadores preferidos e estava a sofrer a sério pela União Soviética, mas o vólei do Van Basten de um ângulo impossível na final de 1988 é daqueles golos que, só por si, garantem a um jogador um lugar na história. O golo do Maniche na meia final de 2004 contra a Inglaterra, inexplicavelmente disparado do canto esquerdo do nosso ataque, junto à linha lateral, também tem o seu ar de prodígio. E o disparo do Figo entre as pernas do pobre defesa, perante o ar impotente do Seaman, no início da épica recuperação contra a Inglaterra em 2000 continua a entusiasmar sempre que o revejo. O golo decisivo do Nuno Gomes contra a Espanha, em 2004, bola a fugir tão inevitavelmente ao Casillas, é uma memória bonita. E também me recordo de o segundo do Ronaldo contra a Holanda, em 2012, ser uma jogada de contra ataque absolutamente perfeita - fui confirmar no YouTube: Pepe, Moutinho, assistência da direita de Nani, Ronaldo a apanhar na área, pausa para desiquilbrar o defesa, chutá-la lá para dentro. Que golão. A verdade é que me lembro melhor dos nossos golos. É provável que esteja mais atento e a viver a joga mais intensamente. Mas o golo do Van Basten à União Soviética foi mesmo incrível.